CENTENÁRIO

 DIVERSOS    ESCRITO POR MARCOS BITTENCOURT 

Quando me propus a prestar esta homenagem ao meu avô pretendia falar apenas do homem de família, pai e avô carinhoso, amigo leal, de extraordinário senso de humor, festeiro e brincalhão, ele tinha o que hoje chamamos de carisma.

Quando me propus a prestar esta homenagem ao meu avô pretendia falar apenas do homem de família, pai e avô carinhoso, amigo leal, de extraordinário senso de humor, festeiro e brincalhão, ele tinha o que hoje chamamos de carisma. Mas aí me dei conta de que tudo isso – e havia muito mais – não teria sido suficiente para torná-lo INESQUECÍVEL aos olhos de quem o conheceu, e não apenas para aqueles que, como nós, o amavam. Amamos, porque o amor não precisa morrer.

Percebi então que não poderia deixar de falar de sua vida pública, uma vez que o AMOR À JUSTIÇA estava na sua essência, em sua alma, algo que Ditadura alguma poderia lhe roubar. De fato, recordando momentos de um delicioso convívio familiar, pude perceber que este desejo, esta paixão, estava presente em quase todas as suas atitudes, especialmente no convívio com os mais humildes. Ele genuinamente se importava com o que acontecia às pessoas ao seu redor, algo que frequentemente propiciava alívio aos pobres que tinham a sorte de cruzar o seu caminho, mas que, por outro lado, lhe causava dor e sofrimento.

Não suportava a ingratidão, que lhe doía tal qual um punhal no peito. Dotado de generosidade imensa, proporcional ao seu temperamento explosivo, era capaz de errar, mas também de se desculpar e, eventualmente, de perdoar. Mas, para mim, o traço definitivo de sua personalidade era a coragem, quase temerária, de agir de acordo com suas crenças e convicções. E mais do que convicção, sua religião era a JUSTIÇA. Como outro dia tentei demonstrar ao meu filho através de um maquiavélico e aparentemente despropositado beliscão, Justiça não é uma questão meramente acadêmica, mas algo palpável e, por vezes, doloroso, pois doloroso era para meu avô presenciar qualquer ato de injustiça. Esta era a razão que o impedia de se calar ou de se omitir nestas ocasiões, ainda que agir eventualmente significasse amealhar inimigos poderosos e colocar em risco sua segurança pessoal. A prudência é a reação natural do ser humano, em resposta a um instinto fundamental e primitivo, que é o da sobrevivência ou auto preservação. Não é defeito, mas qualidade. Alguns homens, contudo, colocam suas convicções acima destes instintos, e este era o caso de meu avô.

Neste contexto, ouso discordar de quem o vê como vítima ingênua e completamente indefesa dos acontecimentos precipitados pelo Golpe de 1964. Evocando seus ensinamentos relativos à vitimologia, creio que, em certo sentido, ao ser um arauto nada discreto das causas justas, verdadeiro Dom Quixote daqueles tempos, ele fez por merecer a GLÓRIA de ser injustamente punido por um Regime que não aceitava contestações e sufocava a liberdade de expressão. De fato, não creio que ele jamais tenha se arrependido das escolhas essenciais que fez na vida; se lhe dessem a oportunidade de voltar, fazer tudo de novo, creio que o faria exatamente do mesmo jeito, mesmo sabendo quais viriam a ser as consequências. A história traz inúmeros exemplos de homens que ignoraram a auto-preservação para lutar em defesa de algo maior, em busca de um ideal. Tais homens alcançaram a grandeza, não porque sofreram as consequências de seus atos aparentemente imprudentes, mas porque nos inspiram a fazer o que é certo, o que é justo, aquilo em que acreditamos, mesmo diante de circunstâncias desfavoráveis. Este, creio, é o maior legado de homens como meu avô, Edgard de Moura Bittencourt. Esta é a razão fundamental pela qual ele não deve ser esquecido. Este é o principal motivo de estarmos aqui, celebrando sua vida.

(texto publicado originalmente em 2008)

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